Reabilitação após AVC

O acidente vascular cerebral (AVC), também chamado de derrame, ocorre quando o fluxo de sangue para uma área do cérebro é interrompido, comprometendo o funcionamento das células daquela região. A reabilitação pós-AVC trabalha a recuperação de movimento, força, sensibilidade, equilíbrio, marcha, fala, deglutição, atenção, memória, planejamento e outras funções afetadas em cada caso, e busca a retomada da independência nas atividades do dia a dia. No Instituto Glia de Neuroreabilitação, em Alphaville, Barueri (SP), o tratamento começa por uma avaliação neurofuncional conduzida pela nossa equipe — fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia —, conforme as demandas de cada caso.

Um AVC muda a rotina de quem teve o AVC e a de toda a casa. Levantar da cama, segurar um copo, atravessar a rua, achar a palavra na hora de falar, lembrar e planejar tarefas simples, resolver problemas simples — tudo passa a exigir esforço, tempo e a ajuda de outra pessoa. A família reorganiza horários, divide cuidados e chega cedo a uma pergunta prática: o que dá para recuperar?

A reabilitação neurológica trabalha exatamente nesse ponto — na recuperação do movimento do lado afetado, do equilíbrio, da marcha, do uso da mão, da fala, da deglutição, da atenção, da memória, da resolução de problemas e outras demandas para retomada das atividades do dia a dia. O quanto se recupera varia com a extensão e a localização da lesão, o tempo desde o AVC e as condições clínicas, e depende ainda da intensidade, qualidade e especificidade do tratamento — por isso a avaliação inicial vem antes do plano: é ela que transforma a pergunta da família em metas concretas, caso a caso.

Tipos de AVC

TipoO que acontece
AVC isquêmicoO tipo mais comum. Um vaso que leva sangue ao cérebro é bloqueado, total ou parcialmente
AVC hemorrágicoUm vaso sanguíneo no cérebro se rompe, causando sangramento
Ataque isquêmico transitório (AIT)Obstrução temporária do fluxo sanguíneo; os sintomas costumam desaparecer em menos de 24 horas

Sinais de AVC

Identificar os sintomas rapidamente é decisivo, porque as primeiras horas são determinantes para o tratamento médico. Os sinais variam conforme a área do cérebro afetada:

  • Fraqueza ou dormência súbita no rosto, braço ou perna, especialmente de um lado do corpo.
  • Dificuldade para falar ou entender a fala, incluindo confusão repentina.
  • Alterações de visão em um ou nos dois olhos, como visão turva ou perda de visão.
  • Dificuldade para caminhar, tontura, perda de equilíbrio ou de coordenação.
  • Dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente.

Teste rápido — sorriso, movimento, fala:

  • Sorriso — peça que a pessoa sorria. Se um lado do rosto não se mexe adequadamente, é sinal de alerta.
  • Movimento — peça que levante os dois braços. Se um braço não sobe ou cai, é sinal de alerta.
  • Fala — peça que repita uma frase simples. Fala arrastada ou dificuldade para falar é sinal de alerta.

Diante desses sinais, procure atendimento médico imediatamente: pronto-socorro mais próximo ou SAMU 192.

As fases do AVC

A partir dos primeiros sintomas, estabelece-se uma linha do tempo que orienta a reabilitação.

FasePeríodoO que caracteriza
Agudaprimeiros 3 mesesDiagnóstico, tratamento médico e início da reabilitação.
Subagudade 3 a 6 mesesQuadro clínico mais estável, dificuldades melhor mapeadas, alta disponibilidade do sistema nervoso para mudança
Crônicaapós 6 mesesQuadro estável; sintomas persistentes demandam tempo e direcionamento específico para formar novas conexões

A neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de se reorganizar conforme os estímulos recebidos, seja quando aprendemos algo novo, seja após uma lesão.

Nas fases aguda e subaguda o sistema nervoso está mais disponível para mudança, pois a própria lesão desencadeia mecanismos para que o cérebro se reorganize, o que aumenta a importância de iniciar a reabilitação cedo, fazendo com que estímulos específicos direcionem a neuroplasticidade para resultados mais rápidos e eficientes.

Na fase crônica a neuroplasticidade segue presente, mas precisa de estímulos ainda mais intensos e específicos para que o cérebro entenda que precisa se reorganizar novamente. O trabalho se concentra nos potenciais ainda não explorados e em criar estratégias mais eficientes do que as disponíveis para seguir melhorando.

O que determina a recuperação

O quanto das funções afetadas pode ser recuperado depende de vários fatores:

  • extensão e localização da área do cérebro afetada;
  • rapidez com que o atendimento médico aconteceu;
  • intensidade e especificidade do tratamento de reabilitação;
  • engajamento do cliente no processo;
  • presença de outras doenças associadas;
  • acompanhamento por profissional especializado em reabilitação neurológica.

Por isso não existe prognóstico único: cada caso é avaliado individualmente, e as metas são definidas na avaliação e revistas ao longo do tratamento.

Recursos usados na reabilitação pós-AVC

Treino orientado à tarefa — treino das atividades do dia a dia afetadas pelo AVC: virar na cama, levantar da cadeira, caminhar, usar o braço afetado.

Neuromodulação — recurso que modifica a atividade cerebral, inibindo ou estimulando circuitos neurais e áreas específicas do cérebro.

Terapia por contensão induzida — protocolo intensivo e progressivo aplicado ao longo de 10 dias, com exercícios e estratégias comportamentais que favorecem o uso do membro afetado.

Gameterapia — jogos específicos que propõem exercícios desafiadores e seguros, estimulando movimento, marcha, atenção e equilíbrio de forma controlada.

Eletroterapia — usada para dor, sensibilidade, espasticidade e fortalecimento muscular. Associada ao movimento, favorece a ativação muscular e de áreas cerebrais.

Treino em esteira — com ou sem suspensão de peso, quando a pessoa ainda não caminha sozinha. Estimula a descarga de peso na perna afetada, o equilíbrio e a simetria da marcha.

Laserterapia — usada como estratégia coadjuvante para sensibilidade, desempenho muscular e salivação.

Terapia das afasias — estimulações voltadas para melhora da compreensão e/ou expressão da linguagem, focando principalmente na melhora do planejamento linguístico-simbólico.

Terapia das disartrias — exercícios que têm como objetivo trabalhar as cinco bases motoras da fala, melhorando o planejamento sensório-motor e a execução motora.

Estimulação tátil, térmica e gustativa — estimulação voltada para melhora da sensibilidade dentro e fora da boca.

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Avaliação AVC

A avaliação segue um protocolo definido que identifica as condições clínicas, as dificuldades apresentadas e suas causas, além dos objetivos do cliente com o tratamento. No AVC podem atuar a fisioterapia, a fonoaudiologia, a terapia ocupacional e a psicologia, conforme o quadro. A partir dela, o nosso especialista apresenta ao cliente e à família as áreas que precisam atuar no processo de reabilitação (caso isso já não tenha sido feito pelo neurologista ou fisiatra responsável pelo caso), os protocolos possíveis e a evolução esperada. Cada área realiza sua avaliação específica, define causas e objetivos de acordo com a sua expertise, e após as avaliações a equipe alinha objetivos, define a frequência de cada tratamento e valores e formas de pagamento.

Perguntas frequentes

Quanto tempo depois do AVC devo começar a reabilitação?

A reabilitação costuma começar o mais cedo possível, ainda na fase aguda, assim que houver liberação da equipe médica. As fases aguda e subaguda — os primeiros seis meses — são o período em que o sistema nervoso está mais disponível para mudança. Além disso, conforme a gravidade do quadro pode haver risco de queda, engasgo e outros riscos, e quanto antes forem abordados menores serão as complicações e mais rápida a adaptação ao quadro atual e a evolução.

Quem teve AVC há anos ainda pode melhorar?

Sim. Na fase crônica o cérebro segue capaz de formar novas conexões, e o trabalho se concentra nos potenciais ainda não explorados e em criar estratégias mais eficientes do que as disponíveis para seguir melhorando. Os ganhos costumam exigir tratamento mais específico e intensivo, e as metas são definidas caso a caso na avaliação.

É possível voltar a andar depois de um AVC?

Depende da extensão e da localização da lesão, do tempo desde o evento e de outros fatores clínicos. A marcha é um dos objetivos mais frequentes da reabilitação, e o treino inclui recursos específicos como eletroestimulação, treino com suspensão de peso quando a pessoa ainda não caminha sozinha, treino em esteira com ou sem suspensão de peso, avaliação, seleção e treino com dispositivos (como andador, bengala e muleta, avaliados caso a caso), treino em ambiente externo, em rampa, em escadas, e outros recursos e estratégias selecionados conforme o caso. A avaliação inicial é o que permite estabelecer metas realistas, recursos e estratégias para cada caso.

É possível voltar a falar depois de um AVC?

Depende da extensão da lesão, do tempo desde o evento e da gravidade das alterações. Para entender como o AVC afeta a fala, vale ressaltar que o termo “fala” engloba apenas a parte motora, e existem outras alterações que podem afetar a nossa comunicação. Por isso precisamos, durante a avaliação fonoaudiológica, diferenciar duas possíveis causas:

Afasia (alteração de linguagem): a pessoa pode ter dificuldade para entender o que ouve ou lê, e/ou para se expressar (seja falando ou escrevendo).

Disartria (alteração da fala): a pessoa sabe exatamente o que quer dizer e entende tudo, mas tem dificuldade para controlar e coordenar as estruturas responsáveis pela fala, deixando a fala difícil de entender.

A gravidade inicial de cada uma destas alterações pode variar muito, e em alguns casos estas dificuldades podem estar associadas, deixando o quadro mais complexo. Alguma recuperação sempre é possível e, enquanto se busca a máxima recuperação, várias estratégias podem ser utilizadas para facilitar a comunicação e melhorar a qualidade de vida, muito impactada nestes casos.

É possível voltar a comer sem dificuldade após um AVC?

Depende da extensão e localização da lesão, do tempo desde o evento e de outros fatores clínicos. A dificuldade para comer pode envolver desde alterações no paladar e na mastigação até o ato de engolir, no qual o cliente pode apresentar engasgos frequentes. Os engasgos afetam o aporte nutricional e o bem-estar, mas o maior perigo é a broncoaspiração: a entrada de alimentos, líquidos e secreções nas vias aéreas pode causar pneumonia aspirativa, uma complicação grave que frequentemente exige internação hospitalar.

O retorno à alimentação segura é um dos principais objetivos da reabilitação, e o processo inclui recursos específicos como exercícios para fortalecer as musculaturas envolvidas na mastigação e deglutição, adaptação na consistência dos alimentos e líquidos, uso de utensílios especiais (como copos e talheres adaptados), além de treinos de postura e técnicas de proteção ao engolir. A avaliação fonoaudiológica inicial é o que permite estabelecer metas realistas, recursos e estratégias seguras e adequadas para cada caso.

Que adaptações preciso fazer em casa para receber a pessoa com AVC após a alta?

Depende da gravidade e complexidade do quadro. Casos mais graves podem precisar de cama hospitalar, cadeira de rodas e de banho, barras de apoio no banheiro e até suporte para respiração e cuidados em tempo integral. Em outros casos, nas primeiras semanas a rotina exige cuidados atentos: mesmo sem a necessidade de muitos equipamentos de suporte, tarefas como se sentar, deitar-se, ficar em pé, comer, fazer transferências e até entrar e sair do carro para consultas podem ser um desafio e até um risco.

A necessidade de adequações depende das características da casa (presença de escadas, largura das portas, tamanho do banheiro e distância entre os cômodos), do apoio disponível (cuidadores da família ou profissionais) e da presença de animais domésticos. Além disso, no momento das refeições, adaptações simples na rotina — como sentar bem o cliente para comer, ofertar os alimentos e bebidas com mais cuidado, usar copos e talheres adaptados e manter o ambiente calmo e sem distrações — ajudam a garantir que a pessoa coma no tempo certo, com a postura adequada e com segurança.

As orientações de adaptação fazem parte de todo o processo de reabilitação. Elas começam no momento do retorno para casa e vão mudando gradualmente conforme a pessoa ganha mais força, autonomia e evolução no quadro.

É comum a pessoa com AVC ficar desanimada, sem vontade de fazer nada?

Sim, pode acontecer. Em alguns casos a mudança brusca na rotina, nos papéis familiares e nos planos de vida já é por si um grande motivo de desânimo, e em casos mais graves até depressão. Além disso, o AVC pode afetar áreas do cérebro associadas ao controle das emoções, e nestes casos pode haver uma depressão causada pelo próprio AVC. É importante sempre comunicar ao médico responsável essa percepção, para que ele avalie se há uma depressão associada e, neste caso, a indicação de medicação, de acompanhamento adicional com psiquiatra ou de acompanhamento com psicólogo. Aqui no Instituto fazemos tanto a avaliação quanto o acompanhamento psicológico destes casos, e esta intervenção é fundamental inclusive para os resultados em todo o processo de reabilitação neurológica: uma depressão afeta a motivação e o desempenho em todas as tarefas propostas, podendo lentificar e até reduzir as possibilidades de recuperação.

O que é a névoa mental pós-AVC?

O termo névoa mental refere-se à sensação de falta de foco, dificuldade de concentração, lentidão e desorganização nos pensamentos e na tomada de decisão. Pode estar associada ao esforço que o cérebro precisa fazer para realizar tarefas que antes pareciam muito simples — agora, além destas tarefas, o cérebro tem um gasto energético maior destinado à sua recuperação e reorganização. A névoa mental pode ainda ser resultado de lesões causadas pelo AVC em áreas específicas do cérebro responsáveis pela atenção, memória, planejamento e raciocínio. Finalmente, ela pode estar associada a fatores emocionais como estresse, ansiedade e depressão, que também podem estar presentes no AVC. A identificação destes sintomas e do seu impacto na qualidade de vida e no processo de reabilitação precisa ser avaliada, e o tratamento pode incluir medidas compensatórias para minimizar estas queixas e reabilitação cognitiva, com exercícios específicos para cada queixa e estratégias para o melhor desempenho nas atividades do dia a dia. Aqui no Instituto Glia de Neuroreabilitação esta abordagem envolve a atuação da psicologia e, em alguns casos, também da terapia ocupacional, mas as orientações e estratégias são incorporadas ao tratamento em todas as áreas.

O que é neuroplasticidade?

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de se reorganizar, tornando mais eficientes as conexões presentes e formando novas conexões entre os neurônios. É esse mecanismo que permite aprender tudo que aprendemos ao longo da vida e reaprender a se movimentar, falar, andar e até raciocinar depois de uma lesão cerebral. A neuroplasticidade é a ferramenta mais preciosa de todo o processo de reabilitação, mas precisa ser explorada e direcionada corretamente por cada profissional para alcançar os melhores resultados possíveis em cada caso.

O Instituto Glia atende quem teve AVC em domicílio?

Sim. Além do atendimento nos consultórios em Alphaville, Barueri, o Instituto realiza atendimento domiciliar.

Precisa de encaminhamento médico para iniciar a reabilitação?

Não é obrigatório: tanto o fisioterapeuta quanto o terapeuta ocupacional, o fonoaudiólogo e o psicólogo podem avaliar e tratar sem encaminhamento. Levar relatório de alta, exames de imagem e a lista de medicamentos em uso ajuda a montar o plano de tratamento. Mas o encaminhamento será necessário para solicitar reembolso junto ao convênio médico, se for o caso. E independentemente de o médico que acompanha o caso ter feito o encaminhamento, entraremos em contato para informar o que identificamos na nossa avaliação, o plano de tratamento, a evolução e a discussão do caso.

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Autoria e revisão

Conteúdo sob responsabilidade técnica de Dra. Tatiana de Paula Oliveira — CREFITO-3/31193-F.

Última atualização: 22 de setembro de 2026

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